Luíz Noriega - Narrador de Futebol - Dez Melhores
 
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Entrevistado desta seção que traz o pensamento de importantes nomes do jornalismo esportivo brasileiro, é um nome histórico. 
Paulista de Nova Aliança, nascido a 16 de agosto de 1930, Luiz Noriega foi um dos mais marcantes narradores das décadas de 70 e 80. Atuou, entre outros veículos, na Rádio e na TV Tupi. 
Na rádio participou da famosa "Equipe 1040", e na TV compôs as equipes jornalística e esportiva. Seu período mais lembrado - inclusive ainda hoje, por seguidas reprises no programa "Grandes Momentos do Esporte" - é a TV Cultura, onde ficou por 17 anos, chefiando o time ao lado de outro mestre, Orlando Duarte. Hoje, Luiz atua na assessoria de imprensa da Federação Paulista de Tênis, mas a família Noriega continua ativa no jornalismo esportivo. Seu filho Maurício Noriega é comentarista de futebol no Sportv. 
(Créditos da produção e edição : Edu Cesar - www.papodebola.com.br)

Resuma um pouco sua trajetória no jornalismo esportivo. Quais pessoas te influenciaram, o quê te motivou a seguir essa carreira?
No interior paulista ouvia muito as rádios Tupi (Rio e SP), Nacional, Mayrink Veiga, Farroupilha de Porto Alegre, e fui tomando gosto pela locução. O início foi em Olímpia (SP), fazendo propaganda de lojas em cidades vizinhas e fazendas da região, até surgir convite para trabalhar na rádio Difusora Olímpia ZYG-8. Daí para um teste na Tupi de São Paulo, com Aurélio Campos, foi um pulo, nos idos de 1950.

O senhor passou pelo rádio do Recife, na emissora Tamandaré. Quais lembranças vem deste período em Pernambuco?
Estava começando na Tupi quando as Associadas montavam uma equipe para a Rádio Tamandaré do Recife, para concorrer com a Jornal do Comercio, aquela do famoso “Pernambuco falando para o mundo”. Propuseram a transferência, com salário três vezes maior que o de São Paulo, e lá fui eu para uma nova experiência, com profissionais de vários estados. A Tamandaré foi muito importante na minha carreira. Fazia esportes, rádio teatro, jornalismo e locução comercial. Apresentei, em auditórios e clubes, as orquestras de Agustín Lara, Tommy Dorsey, Canaro, Tabajara, de Severino Araújo, Francisco Alves, Angela Maria, Irmãs Batista. Fiz locução comercial de um grande programa do jornalista Luiz Maranhão Filho, o “Ruas do Mundo”, ao lado do grande Luiz Jatobá. Nessa época recebi um convite para trabalhar na Rádio Nacional do Rio, referência absoluta de grande rádio no País. Para voltar a São Paulo, tive que assinar um termo de compromisso: não trabalharia em nenhuma emissora do Norte e do Nordeste, das quais também tinha convites.

Foste componente da Equipe 1040 da Rádio Tupi, que marcou época no rádio esportivo de São Paulo. Fale um pouco dela.
A 1040 foi uma verdadeira revolução no rádio esportivo brasileiro em termos profissionais e financeiros. A chegada de Pedro Luiz, formando novamente dupla com Mário Morais, significou uma mudança salarial impressionante para os que já estavam na casa e outros que completaram as equipes de rádio e TV da Tupi. Pena que tenha durado pouco. E logo depois começaria o triste desmanche de boa parte do império dos Diários Associados.

Sua passagem pela Cultura ainda hoje é lembrada, em reprises constantes. O que significou para o senhor, profissionalmente, esta fase?
A Cultura foi uma fase maravilhosa, um verdadeiro laboratório, uma proposta de TV séria e objetiva, ao tempo da inauguração e presidência do saudoso José Bonifácio Coutinho Nogueira. O esporte era prestigiado e dava espaço para todas as modalidades, fazendo aparecer novos valores e liberando espaço que a mídia nunca ofereceu aos chamados esportes amadores. Pena que com mudanças de governos e alguns “inventores” tenha passado por sérias crises, gerando muitas demissões e praticamente acabando com uma excelente equipe que, se mantida, estaria competindo em pé de igualdade com as redes comercias. A Cultura teve grande influência no desenvolvimento do vôlei, do tênis, da natação, do basquete, do golfe, do hipismo e de todos os esportes. Nós, profissionais da equipe, aprendemos muito.

Na década de 70 o estilo dos narradores de TV era diferente de hoje. O que o senhor acha do estilo atual de narração esportiva na TV, numa média geral?
Cada um tem seu estilo. Eu procurei criar o meu, trabalhando com um diretor de TV, Arruda Neto, também um grande locutor, e mirando diretamente no telespectador. Até ensaiávamos antes das transmissões, usando muito o monitor. Eu não gritava gol, não falava muito, usava o “taí o primeiro gol”, ou “São Paulo, primeiro gol no Morumbi”, ou “Inter, primeiro gol no Beira-Rio”. Usávamos o recurso do “slow-motion”, o “tira-teima” nos lances duvidosos, sem emitir opinião, deixando para o telespectador em sua casa, no bar, no clube, o direito de comentar. Hoje é diferente. A parafernália técnica dá mil recursos. Só que o pessoal fala muito, é quase uma narração de rádio na TV, e acaba se comprometendo com opiniões que a imagem desmente. Mas reconheço o trabalho de profissionais da área, todos competentes e com boa receptividade.

Nos anos em que atuaste no esporte, quais as coberturas mais marcantes que fizeste, pelo lado bom e/ou ruim?
Muitas. Fiz decisões de boxe com nosso Éder Jofre ganhando mundiais, vi o João do Pulo ser prejudicado escandalosamente na Olimpíada de Moscou, o Esporte Clube Sírio ser campeão mundial de clubes de basquete, a Seleção Brasileira vencendo o torneio do Bicentenário da Independência dos EUA, o gol de Basílio quebrando o jejum do Corinthians em 1977, o Paulo Borges quebrando o tabu contra o Santos. Vi nascerem craques como Pelé, Pagão, Canhoteiro, Rivellino, Muricy, Falcão, Sócrates, Serginho Chulapa, Toninho Guerreiro, grandes craques como Zizinho, Pedro Rocha, Dirceu Lopes, Tosão, Bauer, Noronha, Djalma Santos, Zito, Mauro e tantos outros. Vi forçarem a barra para recuperar Pelé na Copa de 62, quando estava claro que não havia chance e, da mesma forma, em amistosos no exterior, como um em Milão, porque fazia parte do contrato e era obrigatória a presença do Rei.

O Sr pode afirmar se sentir realizado profissionalmente, ou faltou algo, algum trabalho ou cobertura que não chegaste a fazer?
Poderia ter trabalhado um pouco mais no meio e tive alguns convites de rádio e televisão. Antes mesmo de acabarem com a equipe da Tv Cultura recebi um convite da Rede Globo e outro da Rede Bandeirantes.

Cite alguns profissionais com os quais tenha trabalhado que te marquem duma forma mais especial.
Trabalhei com grandes equipes e grandes amigos. Mencionar nomes poderia melindrar pessoas. A turma da Tupi, antes da 1040, era uma verdadeira família. A da Cultura idem.

Acha que jornalista deve declarar para qual time torce? Se lhe perguntarem seu time do coração, responde ou sai pela tangente, argumentando que profissional não tem clube?
Não vejo nenhum inconveniente, desde que mantenha o equilíbrio e não comprometa seu profissionalismo. Como são paulino tive até atritos com dirigentes tricolores por críticas que fiz à equipe e ao próprio clube.

O que o senhor acha da postura da maioria dos veículos, que fala 90% de futebol e 10% de outros esportes?
Lamentável! Fiz vários comentários a respeito. Acho absurdo não darem mais espaço para basquete, tênis, golfe, hipismo, natação, ginástica, com tanta coisa bonita para se ver. Tratam os campeonatos europeus com mais destaque do que grandes conquistas amadoras dos nossos jovens atletas. Ainda bem que os canais por assinatura estão aí com muitas horas e variedade no ar.

Qual seu conceito sobre a participação das mulheres no jornalismo esportivo?
Houve uma experiência frustrada com narração em um determinado momento. Mas hoje temos uma presença bonita e competente em canais abertos e fechados, valorizando e embelezando a cobertura jornalística esportiva.

Poderia contar alguma história curiosa de bastidores da imprensa esportiva que tenha vivenciado de perto e não saibamos?
São muitas. Apesar do aspecto sisudo, fui meio gozador e até moleque às vezes, sem prejudicar ninguém no entanto. Certa vez, em Lisboa, às vésperas de uma exibição da Seleção, estávamos no hotel e fazia um frio danado, além de uma chuva fina. Liguei para o apartamento do chefe do grupo e do fotógrafo imitando um português e dizendo que havia uma encomenda urgente na Emissora Nacional. Já era tarde da noite e lá foram os dois. Depois de descoberto o trote, queriam me matar. No Cairo, em 1963, eu e o Milton Camargo (chefe da equipe da Rádio Tupi), gastando nosso inglês e francês macarrônico, negociávamos com a direção da Rádio Cairo a cessão de uma onda curta para a transmissão de Brasil x Egito, inaugurando um estádio. Não havia satélite e as linhas eram disputadíssimas, havia boicote e falaram até fartas gorjetas pelas melhores. Pagamos os dólares solicitados, mas a transmissão só chegou no dia seguinte, no horário brasileiro da Rádio Cairo... No Nordeste, num determinado jogo, para cumprir patrocínio, chovia muito e no estádio estávamos apenas eu, o comentarista e o operador de som. Jogo feio, sonolento. Às tantas, inventei um gol e fui mantendo! Quando faltavam uns cinco minutos para acabar o jogo, alertei os ouvintes para desfazerem possíveis apostas porque eu tinha chutado o gol para não dormir na transmissão... Certa vez, um time japonês estava jogando no Pacaembu e fiz a abertura com a escalação que divulgaram do time japonês toda decoradinha. Aí mudaram tudo e não divulgaram a relação de jogadores. “Escalei” Hitachi, Mitsubishi etc. Outras, mesmo com a liberdade do palavreado na mídia, são impublicáveis.

Se pedirmos para dizer alguém no esporte que mereça nota 10 e alguém no esporte que mereça nota 0, quais seriam e por quê?
Tem muita coisa boa, mas também muita tranqueira. Melhor deixar pra lá.

Falando de futebol em si: viste diversos timaços e craques. Quais os maiores times e jogadores que o Sr teve a alegria de acompanhar?
Eu vi, sim, timaços e craques. O Honved de Puskas e cia. era fantástico. Vi, no Pacaembu, numa promoção de uma marca de cigarro. Uma máquina. Vi o belga Van Hinst (posteriormente técnico da seleção belga) dando aula de futebol numa goleada histórica em cima do Brasil; o São Paulo de Bauer, Rui e Noronha; o Palmeiras de Dudu e Ademir da Guia; o Corinthians de Sócrates, de Rivellino; times maravilhosos de Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, América, a Portuguesa de Pinga, Simão, Djalma Santos; o Inter e o Grêmio. Vai longe.

Em termos administrativos, temos jeito, no tocante aos dirigentes do futebol brasileiro?
Certa vez fiz comentários sugerindo aos nossos dirigentes que freqüentassem a Escolinha do Professor Nuzman, pelo que ele fez no vôlei. Nossos dirigentes são excessivamente vaidosos e pouco profissionais. Veja o recente e lamentável caso do Corinthians.

Discute-se sobre a Copa do Mundo de 2014. Temos condições para realizar isso? O Sr é favorável ou contrário à Copa no Brasil?
Há muitas coisas mais importantes que promover mais uma vez a Copa do Mundo em nosso País. Acabar com os mensalões, com os políticos profissionais e administradores incompetentes, com o analfabetismo, a falta de respeito ao aposentado, com os rios poluídos, a falta de escolas e hospitais públicos, a violência, o tráfico de drogas e assim por diante. Além disso, há o perigo do superfaturamento, como vimos recentemente no Pan do Rio. Se é para atrair mais turistas ? existem outros meios, menos dispendiosos e mais eficientes.

Antes falei das mulheres no jornalismo esportivo, agora abordo o futebol feminino. Qual seu pensamento a respeito de nossas boleiras?
As meninas do futebol merecem rasgados elogios pelo que fizeram no Pan e no Mundial da China. Está na hora de serem recompensadas, com campeonatos bem organizados e prestigiados. Merecem o nosso respeito.

Hoje o senhor lida com tênis. O Brasil, depois de Guga, não criou sucessores. Qual sua opinião sobre o momento do tênis brasileiro?
Não criou e nem vejo boas possibilidades de criação. A Era Guga poderia ter sido mais bem aproveitada e o próprio Guga, talvez por falta de melhor assessoria, poderia ter feito um relacionamento maior com clínicas gratuitas para jovens e um relacionamento mais popular. Tive a felicidade de ver o Guga nascer como ídolo ao dar a vitória ao Brasil jogando duplas contra o Chile, na Copa Davis. Com tristeza relato o episódio do boicote, do qual ele participou com outros profissionais, e que tirou o Brasil do Grupo Mundial. Poderiam ter jogado sob protesto, mas nunca deixado de defender o País. O tênis vive uma fase ruim, com academias fechando, clubes saindo das federações e pouca gente se interessando.

Seu filho Maurício seguiu o mesmo caminho e é um nome importante do atual jornalismo esportivo. O que o senhor acha do trabalho dele?
No dia a dia, pelas ruas de São Paulo, sou freqüentemente abordado por pessoas que acompanham o trabalho do Maurício e só fazem elogios. Sinto muito orgulho de seu profissionalismo, do fato de estar sempre atualizado, bem informado, de seu equilíbrio e de sua postura de uma forma geral. Antigamente era “você é filho do Noriega”. Agora a coisa mudou: “você é o pai do Maurício Noriega”.

Por fim, deixe algum tipo de mensagem para os leitores, um conselho, um recado, um toque, qualquer coisa que vier à cabeça.
Sempre tive um carinho muito grande por Porto Alegre e pelo Rio Grande do Sul. Até tinha como alternativa, se um dia mudasse de São Paulo, viver na capital gaúcha. Adoro e tenho feito visitas à Serra Gaúcha. Cheguei a montar praticamente uma equipe inteira para o Juventude de Caxias, com o auxílio do grande amigo e treinador Oswaldo Brandão, uma criatura humana excepcional, do Valdir de Morais, do Romeiro e de alguns dirigentes paulistas. Foi na época em que era presidente o doutor Wili Sanvito e estava próxima a inauguração do estádio, após as reformas. Custo zero, a título de colaboração aos Sanvito, com os quais eu tinha muita amizade. Acompanhei a delegação do Palmeiras no jogo inaugural. A mensagem é de seriedade, responsabilidade e muito amor pela prática do jornalismo, sem jamais colocar o individualismo acima do trabalho em equipe e também nunca se achar mais importante do que o evento esportivo, do que a narração, o jogo e os atletas. 



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